A força de um ideal
A história de Virgílio Gomes da Silva é o retrato das lutas do povo brasileiro por justiça, igualdade, participação popular. É a história de milhões de nordestinos que deixaram sua terra em busca de melhores condições de vida nos grandes centros urbanos do país.
Virgílio começou vencendo a miséria. Nasceu pobre, em 15 de agosto de 1933, no Sítio Novo, localidade de Santa Cruz, Rio Grande do Norte. Era filho de Sebastião Gomes da Silva e Isabel Marinho de Carvalho.
Sua baixa estatura escondia uma força descomunal. Seus 1,65 de altura sustentavam a coragem do pugilista que foi, e o idealismo de um cidadão que lutou por liberdade e democracia.
Era forte e solidário. Esbanjava sensibilidade, como orquídeas apoiadas aos troncos rústicos das árvores. Amoroso e sonhador, cuidava daqueles que amava com total dedicação.
Virgílio chegou a São Paulo com 18 anos. Passou fome, dor, humilhação mas, não se deixou abater. Trabalhou e tornou-se ativista sindical de destaque dentro da Empresa Nitro Química, em São Miguel Paulista. Casou-se com Ilda Martins da Silva, em 21 de maio de 1960, com quem teve quatro filhos.
Passou a militar no PCB no começo da década de 1960. Pela ALN, fez treinamento militar em Cuba, em 1967.
Tornou-se, como outros milhares de brasileiros, um lutador incansável contra os horrores e desmandos do regime militar. Perseguido pela ditadura, foi obrigado a cair na clandestinidade, adotando o codinome de Jonas.
Estado de guerra
4 de setembro de 1969, 5ª feira, 9 horas da manhã, bairro de Botafogo, Rio de Janeiro. Um grupo de 12 pessoas toma suas posições. Faz sol. Às 14h20, alarme falso: um carro diplomático cruza a região. Pouco depois, outro carro se aproxima...
Era o sequestro do embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick, a ação mais ousada, que sacudiu a ditadura militar e teve repercussão mundial. O sequestro, comandado por Jonas, obrigou os militares a reconhecerem publicamente a existência da tortura no Brasil, além de conseguir a libertação de 15 ativistas políticos que estavam presos nos porões do regime e que estão vivos até hoje, dentre eles: José Dirceu, José Ibrahim, Ricardo Vilasboas Sá Rego, Ricardo Zarattini, Vladimir Palmeira, Ivens Marchetti, Flávio Tavares e Mário Roberto Zanconato.
Às 17h05m, do dia 6 de setembro de 1969, o "Hércules" C-130.2456 da Força Aérea Brasileira decolou rumo ao México levando em seu interior os prisioneiros políticos, então libertos em troca do embaixador norte-americano.
Virgílio foi preso pouco tempo depois de comandar o sequestro.
Jonas, o primeiro desaparecido político brasileiro
Diante de pisos e paredes manchados de sangue, Jonas se foi. O sangue de um brasileiro, que escorreu pelos cruéis porões da ditadura espalhando-se por ruas, avenidas, por mãos de cidadãos que clamavam e, ainda, clamam por justiça.
Virgílio foi mais uma das vítimas do método inconcebível de tortura, utilizado pelos militares, ao longo dos anos de chumbo. Foi morto no auge do endurecimento, da repressão e da brutalidade da ditadura. Virgílio sabia que corria perigo. Era um lutador e sua luta não foi em vão.
Por volta das 11 horas do dia 29 de setembro de 1969, na Av. Duque de Caxias, em São Paulo, Virgílio Gomes da Silva foi levado por agentes da OBAN, organização ligada ao DOI-Codi paulista.
Foi assassinado do modo mais brutal que se possa imaginar. Morreu no mesmo dia, por volta das 21 horas, após várias sessões de tortura. Chegou algemado e encapuzado, sobrevivendo, por horas, à sequências de chutes, pontapés, pauladas.
O agora homem Virgílio desafiava a dor, o sofrimento, e, mais uma vez, a humilhação. O agora Jonas desafiava seus carrascos, lutando pela vida.
Aos 36 anos, Jonas se foi, pendurado no pau de arara. Seu corpo fora destruído. O laudo do assassinato atesta que a maioria de seus ossos foram quebrados, seus olhos arrancados e seus órgãos vitais destruídos, com exceção do coração.
Transcendendo a morte
O nome de Virgílio Gomes da Silva consta da relação de 136 prisioneiros políticos desaparecidos no Brasil.
Após seu assassinato, o regime militar divulgou que ele havia fugido da prisão e essa versão, de que estava foragido, prevaleceu durante muito tempo. Desde então, sua família e companheiros o procuram, sem descanso.
Foi apenas em 2004 que houve a confirmação de sua morte, através do laudo do IML. Apesar das buscas efetuadas no cemitério de Vila Formosa, até hoje, há 42 anos, sua ossada não foi localizada.
A biografia de Virgílio Gomes da Silva transcende sua morte porque sua história faz parte das lutas do povo brasileiro.
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